Resenha do livro China versus Ocidente: O deslocamento do poder global no século XXI.

É um livro escrito por Ivan Tselichtchev, com a colaboração de Yang Yongxin e Frank-Jürgen Richter, publicado originalmente na língua inglesa em 2012. No nosso idioma isso só aconteceu em abril de 2015. O Ivan Tselichtchev é um Ph.D. em Economia, de nacionalidade russa, que há mais de 20 anos mora no Japão, onde já trabalhou em importantes universidades japonesas, atualmente é professor na Niigata University of Management no Japão e atua como especialista internacional nas áreas de economia e negócios asiáticos. Também é autor de vários livros e mais de 200 artigos acadêmicos. Mesmo publicado há oito anos, continua uma obra atual e sua leitura vale a pena, seja porque suas previsões se confirmaram e as análises dos dados econômicos até aquele ano, ainda, permanecem válidas. A proposta básica desse livro é desvelar o fato mais importante do início do século XXI, que foi a emergência da China como uma nova superpotência global. Surgindo assim, uma configuração de duopólio formado pelos EUA e China.

O livro se divide em três partes e 19 capítulos, seguidos de uma conclusão geral e um epílogo. É um livro recheados de dados econômicos e estatísticos, que invariavelmente sugerem uma leitura penosa já que compreender os números astronômicos que envolvem a China e a economia mundial requer uma boa dose de esforço, principalmente para o leitor comum, porém, suas 309 páginas, surpreendem pela abordagem simples e agradável, portanto, interessante, contudo, sem cair na superficialidade. É uma obra indispensável para todos os que desejam transcender a ignorância sobre a nova configuração mundial e da repercussão da China no mundo e as sérias implicações dessa superpotência global no comércio exterior, na política cambial, nas questões ambientais, nas aquisições de empresas e nas novas tecnologias. Temas, os quais Pequim, tem sobressaído sobre Washington e o Ocidente, os quais perderam o protagonismo diante da ofensiva chinesa. O autor destaca que além de contrariar as regras ditadas pelo Ocidente, o país asiático se orienta por suas próprias razões e interesses, especialmente porque adquiriu a capacidade de superpotência financeira. Portanto, o poder de barganha que a China tem ao seu dispor é tão avassalador que os EUA e a União Europeia estão desorientados, no vácuo, numa defensiva desesperada, pois vários setores industriais, cujos domínios estavam no Ocidente já se deslocaram para a China.

Na primeira parte: A China como principal potência produtiva, exportadora e financeira do mundo: até que ponto, até aonde e por quê?

Abrange do primeiro até o capítulo oito. O autor expõe, com riqueza de dados, que a China já alcançou todos os estágios de desenvolvimento tecnológico, os quais eram dominados pelos países desenvolvidos (EUA, União Europeia e Japão) ou pelo Ocidente, também, expõe que na primeira década do século XXI, o gigante chinês conseguiu a posição de maior produção industrial do mundo e consequentemente a de maior exportadora global. Após quatro décadas de gradual, evolutiva e persistente reforma de mercado a China se transformou numa potência produtiva, exportadora e financeira do mundo, além de segundo maior mercado consumidor, fortemente integrado com as economias do Extremo Oriente e do Sudeste Asiático. Apenas, no comércio de serviços, a China não tem o mesmo desempenho dominante como exerce no comércio de mercadorias. O setor de serviços, ainda continua sob a liderança dos EUA e demais países ocidentais, exceto no segmento de computação e de informação, o qual é liderado pela Índia. Enquanto, usava seu potencial de consumo e sua gigantesca mão de obra barata e eficiente, para atrair os principais fabricantes do Ocidente, adotou uma política cambial de moeda fraca, cuja eficácia tornou a China um país com condições muito mais vantajosas à produção industrial praticamente exercendo o monopólio dos baixos custos de produção no mundo todo, ao ponto de setores industriais inteiros abandonarem o Ocidente para se instalarem em território chinês.

Na parte dois: A retração econômica global e mais, além disso: os modelos capitalistas do ocidente e da china.

Vai do capítulo nove ao quatorze. O autor confronta o capitalismo da China e do Ocidente diante da crise financeira de 2008 e 2009, cuja gravidade é inferior, apenas, a crise de 1929. Afirma que crise recente que teve como epicentro os EUA, foi essencialmente Ocidental e o ponto de virada no equilíbrio mundial, pois, a China, diferentemente dos EUA e da União Europeia, manteve seu ritmo de crescimento econômico do PIB numa taxa média de 9%, contrariando as previsões da época, enquanto os EUA e o Ocidente mergulharam numa recessão profunda. A crise de 2008 e 2009, não interrompeu o dinamismo chinês, que foi compensado pelo crescimento do seu mercado interno, fenômeno que indicou o descolamento da superpotência global asiática da economia do Ocidente. Após, longas, quatro décadas, de contínuo e acelerado crescimento econômico, fato inigualável na história recente, o capitalismo chinês provou-se superior, pois nesse período o capitalismo estatal-privado não sofreu nenhum abalo ou recessão. Portanto, a crise financeira que arrastou o Ocidente em 2008 e 2009 expôs a superioridade da estrutura e da macroeconomia chinesa e o fracasso do capitalismo ocidental, especialmente do capitalismo americano. Destacando que até advento da crise, o “capitalismo do acionista”, detinha enorme prestígio no mundo como modelo de governança das empresas, por possuir eficiência, transparência e responsabilidade, a crise revelou o quanto tudo isso tinha se deteriorado. Além disso, revelou que nos EUA o padrão de consumo era insustentável financeiramente e o estilo de vida, apoiado no endividamento tanto das famílias, quanto do Estado. A crise reforçou, ainda mais, o papel da China como credora dos EUA. Mas essa crise contaminou a Europa, especialmente porque adota um sistema previdenciário acima da capacidade financeira. Assim sendo, o endividamento está na base dessa crise do Ocidente, situação que robustece o poder de barganha da elite chinesa que governa uma superpotência financeira e atua como credora dos países endividados. Enquanto, a população chinesa é uma das que mais poupam no mundo, pois não dispõe de sistema previdenciário ao modelo europeu, o Estado Chinês apresenta saúde financeira e capacidade de investimento invejável. Portanto, a população ocidental tem um padrão de consumo excessivo e estilo de vida baseado no endividamento, que foi duramente atingido na crise, mas que tão logo a crise seja atenuada voltará a consumir como era antes, a população chinesa vive um período de segurança social, com altos índices de poupança e consumo moderado, após quatro décadas de contínuo e acelerado crescimento econômico. Deste modo, o capitalismo estatal-privado tem se mostrado mais flexível e ágil para enfrentar os desafios econômicos. O Ocidente se enfraqueceu diante da China.

Na parte três: As disputas econômicas entre a China e o Ocidente: e o vencedor é ...

Aqui temos a última parte do livro que abrange do capítulo quinze até o capítulo dezenove, mais a conclusão geral e o epílogo. O autor conclui que a China está na ofensiva, numa verdadeira guerra econômica contra o Ocidente em cinco setores, cuja capacidade de reagir e restabelecer seu domínio exige que o mesmo se reinvente, para enfrentar a assimetria que a China impôs ao Ocidente e ao mundo. Pois a superpotência asiática está em vantagem no comércio exterior, política cambial, meio ambiente, aquisições de grandes empresas e novas tecnologias. No comércio externo, a China está aumentando agressivamente seu superávit comercial com os EUA e a União Europeia, ignorando todos os apelos dos governos dos países desenvolvidos para que o gigante chinês mude sua estratégia. Quanto a política cambial chinesa a tendência é a valorização lenta, no ritmo de uma tartaruga, contrariando as pressões da União Europeia e dos EUA que desejam desesperadamente a valorização do yuan. A China não tem nenhum interesse de mudar sua política cambial. Política cambial que tem sido uma das principais estratégias para praticamente inviabilizar a produção industrial fora da China, portanto, determinando as empresas se instalarem em seu território, agora focada em atrair as empresas de alta tecnologia visando atingir mais rapidamente a dominação mundial desse segmento, o qual continua com os países ocidentais. Nas questões ambientais, a China não concorda com a hipótese do Aquecimento Global causado pela emissão CO2, mesmo assim, voluntariamente se esforça para implantar várias ações que diminuam consideravelmente a emissão de CO2, destaque para os elevados investimentos na geração de energia solar, incentivo a produção de automóveis elétricos, com meta de que todos os automóveis que circulem em seus territórios sejam elétricos. O objetivo dos maciços investimentos em setores verdes, de novas tecnologias tem em vista transformar a China, em líder mundial no cuidado com o meio ambiente. Além de parcerias com Japão e EUA no desenvolvimento do setor de energia solar. O poder financeiro astronômico da China, com o acúmulo crescente de superávit no seu comércio exterior, e a necessidade de garantir a presença nos mercados ocidentais no segmento de alta tecnologia e assegurar, principalmente, petróleo e minérios para atender as suas demandas internas, levaram a China a uma corrida de aquisições de empresas estrangeiras. Os investimentos chineses na África e América Latina se destinam, especialmente, no setor de minérios e petróleo, sejam através de empréstimos, parcerias em infraestrutura, oferecendo juros abaixo de mercado ou recebimento na forma de produtos. Nos países desenvolvidos o foco tem sido as aquisições de empresas doentes, que estão em situação falimentar, mas detém alta tecnologia, credibilidade e grande mercado. Porém, a suspeita e desconfiança são as reações mais comuns aos negócios chineses no mundo, pois até mesmo as empresas privadas, são altamente financiadas pelos bancos estatais, que no final, estão a serviço do governo comunista. Enquanto, a China está disposta a comprar a qualquer preço as empresas estrangeiras do seu interesse, do outro lado criam uma verdadeira muralha às empresas privadas ocidentais que buscam fazer aquisições de empresas chinesas. Outro setor que a China estabeleceu regras assimétricas tem sido o de tecnologia, as empresas de alta tecnologia continuam migrando para o gigante asiático, tem sido um processo crescente, que fatalmente tem facilitado à ação do governo chinês, o qual através de várias legislações, sabidamente as usa como verdadeiras armadilhas para forçar as empresas estrangeiras de alta tecnologia compartilhar suas altas tecnologias com as empresas chinesas, permitindo que a China acelere o projeto de dominação do mercado global no segmento de alta tecnologia, cujo segmento do mercado mundial ainda não está dominado pelos chineses.

Termina o livro com uma expectativa e uma ironia. A expectativa é que o mundo tende para a multipolarização, na medida em que outros os países emergentes, além da China, estão alcançando elevado crescimento econômico, também que a China não irá ocupar o lugar dos EUA, seja porque não tem esse objetivo considerando que deve manter o foco nos seus desafios internos, pois possui a maior população do mundo para governar, além disso, não existe mais espaço no mundo para o tipo de dominação a exemplo da Inglaterra no século XIX, ou dos EUA após a Segunda Guerra Mundial, embora este ainda continua exercendo grande influência no mundo. A ironia é que a China é uma nova superpotência global incomum, comunista, não é ocidental, um país em desenvolvimento, que oferece muitas oportunidades ao Ocidente, mas que o mesmo não está sabendo aproveitar. Parece que chegou o momento de estudarmos mais a China.

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