Resenha do livro O Quarto Poder – Uma outra história,

O quarto poder – uma outra história, de Paulo Henrique Amorim, lançado em setembro de 2015, pela Editora Hedra, quatro anos antes de seu falecimento, é um livro de memórias, no qual o autor, um jornalista premiado, resolveu publicar para celebrar seus 50 anos de profissão. Embora, fosse um comunista, oferece uma perspectiva interessante da história política do Brasil, através de seus registros desde os 18 anos de idade, quando iniciou no jornalismo, seguindo a carreira do pai, também jornalista. O livro é uma coleção de momentos que vai da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, até ao segundo mandato de Lula, em 2011, portanto, acompanha um período significativo e de grandes transformações do país.

Seu objetivo no livro é revelar a atuação do “quarto poder” no Brasil, que de acordo com a Wikipédia é uma denominação usual utilizada para expressar que a Mídia (meios de comunicação de massa) exerce tanto poder e influência em relação à sociedade quanto os Três Poderes nomeados em nosso Estado Democrático (Legislativo, Executivo e Judiciário). Conhecedor profundo da atuação política das principais empresas de comunicação do país, nas quais trabalhou, resolveu expor as entranhas sombrias do “quarto poder”, suas conexões políticas e econômicas, que sempre agiram como partido político, por isso, a definição de PiG, Partido da Imprensa Golpista, cuja composição é a seguinte: O Globo, Folha, Estadão e seus subprodutos. 

A leitura do livro revela que a narrativa jornalística depende dos interesses comerciais e políticos dos empresários que detém os meios de comunicação, algo que também se percebe na própria abordagem do autor, na organização de suas memórias, pois ainda que reserve algum espaço para relatar a atuação de determinadas pessoas e famílias que têm importante participação no setor de comunicação, entre os quais, Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados, Adolpho Bloch, da extinta TV Manchete, os Frias, proprietários da Folha, os Mesquitas, donos do Estadão, Victor Civita, então proprietário da Editora Abril, que publica a Revista Veja, Silvio Santos, proprietário do SBT, silencia estranhamente sobre o Edir Macedo, dono da TV Record, João Saad, da Band e os proprietários da Rede TV, Marcelo de Carvalho e Amilcare Dallevo Jr. Contudo, seus relatos se concentram sobre a atuação do jornalista Roberto Marinho. Talvez, porque os Marinhos sejam proprietários do maior grupo de mídia do Brasil e evidentemente, ninguém mais teve atuação igual ou superior a Roberto Marinho como representante máximo do quarto poder, cujo poderio não encontra paralelo, em nenhum, outro país de regime democrático do Ocidente.

Segundo o autor, não faltam exemplos de quanto o jornalista Roberto Marinho foi escandalosamente favorecido pelo Estado, desde que ele resolveu investir no segmento de TV, seus negócios se expandiram à custa de muitas vantagens estatais. Destaca que a formação do monopólio da Globo se deu através do financiamento externo ilegal, financiamentos estatais privilegiados com juros abaixo do mercado, aquisições fraudulentas de empresas, sonegação milionária, favorecimento na publicidade das principais empresas estatais, recebimento com sobre preço pelos serviços de publicidade do governo, além de uma legislação nacional generosa que não prever limites à propriedade de empresas nos segmentos de comunicação e também porque o setor de comunicação brasileiro é essencialmente comercial.

A TV Globo nasceu em 26 de abril de 1965, 13 meses depois de Roberto Marinho ajudar os militares assumirem o governo. O autor afirma que a criação dessa empresa ocorreu através de uma operação ilegal, pois a Constituição de 1946 proibia a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação. Mas isso não impediu que Roberto Marinho criasse “sua emissora de TV em sociedade com um dos mais poderosos conglomerados de mídia dos Estados Unidos — o grupo que controlava as revistas Time e Life”. Não demorou e a TV Globo se consolidou e se transformou numa máquina de fabricar dinheiro, que evoluiu para a Rede Globo. “Em 1980, a Rede Globo era a quarta maior emissora comercial de TV do planeta — só ficava atrás das três gigantes americanas, ABC, CBS e NBC.”

Os números não pararam de crescer. “Em 1993, tinha 75% da audiência e, com isso, ficava com 80% do mercado publicitário na televisão brasileira. A maior parte das novas emissoras se tornou afiliada da Globo. O que, com a audiência e o faturamento da rede, era o mesmo que outorgar a Roberto Marinho o poder de doar Casas da Moeda a seus parceiros comerciais e políticos nos estados.” O Jornal Nacional dava 50 pontos de audiência. “Sua central de produções e dramaturgia, o Projac, inaugurado recentemente, a segunda da América Latina (só perde para a da TV Azteca, no México)”. Apesar de seu poder monopolista e imperial, de sozinha, ser hegemônica por décadas, não impediu que a Globo, depois da morte do Roberto Marinho, em 06 de agosto de 2003, quebrasse. Porém o socorro do BNDES e do milionário mexicano Carlos Slim, o qual comprou a NET, evitou o pior, assim a Globo sobreviveu, embora combalida financeiramente. “Saiu vendendo”.

Segundo Paulo Henrique Amorim, O PiG, Partido da Imprensa Golpista, formado pelo O Globo, Folha, Estadão e seus subprodutos, mudou a partir do advento da TV Globo. As grandes transformações politicas, sociais, econômicas e tecnológicas do país provocadas pela industrialização e urbanização, combinadas com a política de segurança nacional da época, também contribuíram decisivamente para que a Globo praticamente sozinha se tornasse o PiG. Especialmente, a partir de 1977, com o início da operação do Sistema Brasileiro de Telecomunicações por Satélite, gerenciado pela Embratel, pois essa integração criara o mercado nacional de publicidade e “com a popularização da televisão, passou a ser possível vender produtos em todo o país através de uma única linguagem mercadológica, o que era muito mais barato e eficiente”. Estava criado o cenário perfeito para que a Globo juntasse privilégios, monopólio, infraestrutura e ousadia empresarial num padrão inigualável de gestão e tecnologia, se transformando num império de comunicações.

Para o autor, Roberto Marinho sempre foi um golpista, prática velha na política brasileira, desde o tempo que tinha apenas o rádio e o jornal, cuja primeira vítima dele foi o Getúlio Vargas, em seguida JK, também apoiou a tomada do poder pelos militares, usufruiu escancaradamente do Estado, ajudou a precipitar o fim do regime e continuou se aproveitando dos governos defendendo outras ideologias de acordo com os seus interesses comerciais e políticos. Ao longo do seu reinado tenebroso, alguns escândalos se destacam como a edição criminosa do vídeo exibido no Jornal Nacional, do último debate entre os candidatos presidenciais para o segundo turno das eleições de 1989, no qual Roberto Marinho ordenou que fosse mostrado apenas o melhor do Collor e o pior do Lula, com objetivo de derrotar o candidato petista e beneficiar o seu candidato preferido, além dessa manipulação, como se não bastasse fraudou pesquisa eleitoral, para influenciar de modo determinante no resultado da eleição.

O autor também destaca que o Roberto Marinho governou o Brasil no governo Sarney, pois os ministros eram nomeados ou demitidos sob as ordens do proprietário da TV Globo. Que FHC foi uma criação da TV Globo e que seus laços com a emissora permanecem até hoje. Destaca, que mesmo o Lula e a Dilma dando muito dinheiro à TV Globo, nunca tiveram o mesmo apoio que esse império sempre ofereceu a FHC e demais presidenciáveis tucanos, como Serra e Alckmin. Também que sem o apoio da TV Globo o FHC nunca teria sido presidente e nem reeleito.

Assassinar reputação sempre foi uma prática de Roberto Marinho, no caso do Getúlio Vargas, isso foi literal, pois o mesmo tirou a própria vida, vários políticos tiveram suas candidaturas fulminadas pela TV Globo, como Brizola, Roberto Requião, Roseana Sarney, Aloizio Mercadante, além dos que essa emissora incansavelmente buscou destruir como Lula e Dilma. Cita que em 2002, a Polícia Federal, sob influência de Serra, o qual mandava na Polícia Federal paulista, mancomunada com a TV Globo, através de ação espetacular fulminou com todas as possibilidades eleitorais de Roseana Sarney, de atrapalhar a candidatura presidencial de Serra, também, em 2006, o “escândalo do dossiê”, cujo objetivo ela destruir a reeleição do Lula e favorecer Geraldo Alckmin, escândalo que levou a eleição ao segundo turno, e Lula venceu com mais de 60% dos votos, num raro caso que o candidato derrotado teve menos votos, que no primeiro turno. Claro, ao acusar a TV Globo de ser hostil a Lula e a Dilma extrapola o razoável quando olhamos o conteúdo amplamente de esquerda dessa emissora.

Todos os políticos que resolveram enfrentá-la foram implacavelmente perseguidos e até hoje nenhuma lei foi aprovada no Brasil que ousasse contrariar os interesses comerciais da Globo. “Ou seja, regulamentar os artigos da Constituição que tratavam da Comunicação e que o Congresso — com medo da Globo e na defesa de seus interesses (da “bancada eletrônica”) — manteve intocados.” Para o autor, “os donos do PiG, cuidam com muito zelo de seu privilégio — o de ser “livre” e impune — e trabalham para manter o monopólio de “liberdade” ao custo do cerceamento da liberdade de expressão dos outros”. Assim, a única liberdade de imprensa que existe é a dos donos dos meios de comunicação, portanto do PiG, quanto a liberdade de expressão dos indivíduos, do cidadão ou do povo, essa não tem importância. Assim é a democracia brasileira da Globo.

No entanto, atualmente se considerarmos o avanço avassalador da internet e as constantes inovações tecnológicas das mídias digitais, além da crescente perda de publicidade da TV Globo para o Google, a expectativa do autor, continua de pé e teremos que aguardar pra vermos, conforme ele predisse: “A Globo vai morrer gorda. Líder, mas sem a receita que pague os custos incorporados nos anos de opulência”.

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