"O aviso na Muralha: A China e o Ocidente no século XXI"

O livro "O aviso na Muralha: A China e o Ocidente no século XXI", de Will Hutton, jornalista, escritor, político e acadêmico londrino, publicado originalmente em 2007 na Inglaterra, e em 2008 aqui no Brasil. Este livro é uma excelente contribuição ao conhecimento sobre o China, os EUA e a globalização. Mesmo que esse livro tenha sido concluído para publicação em julho de 2006, portanto um ano antes da grande crise financeira do subprime, desencadeada em julho de 2007 nos EUA, e elaborado numa perspectiva que jamais previu que em janeiro de 2020, a Inglaterra se retiraria da União Europeia, chamado na mídia de Brexit, o qual é uma abreviação para "British exit" ("saída britânica"), e bem distante de um cenário de pandemia causado por um vírus que surgiu na China. Ainda assim, o livro continua atual, interessante e abrangente sobre o cenário mundial.

O objetivo geral dessa obra é demonstrar que o Ocidente continuará na vanguarda do mundo porque detém um padrão de desenvolvimento duradouro e bem-sucedido, e que essa proeminência está diretamente associada ao Estado de direito, à autonomia do judiciário, à liberdade da imprensa, os processos de pesquisas científicas em universidades independentes ou a verdadeira ideia de um governo representativo, confiável, controlado e equilibrado, que formam a base do seu dinamismo econômico, político e social, através do capitalismo genuíno e da democracia. Esse conjunto de ideias e valores Iluministas que impulsionaram a Europa e os EUA, no século XIX, os quais se consolidaram no século XX, constituem um paradigma atual e insubstituível, seja ao Ocidente, como também ao mundo. Exatamente por isso, que a China, país que não adotou esse modelo, ao contrário, é capitaneada por um governo totalitário tende a se esgotar, pois segue um padrão insustentável e condenado à ruína.

No geral, o livro demonstra que a China está numa encruzilhada política, entre abandonar o comunismo e colher novos estágios de desenvolvimento ou aprofundar suas contradições e produzir seu próprio desmoronamento. Não faltam indícios de que seu desenvolvimento se esgotou. Também, analisa as alternativas que estão diante da China e a depender de suas escolhas, as prováveis consequências para a economia mundial. Resgata a história chinesa, na qual enfatiza a longevidade do seu passado imperial, a queda do poder monárquico, a guerra civil, a ascensão do partido comunista e as políticas que culminaram na aceleração industrial vigente. O título “O aviso na muralha” advém do histórico desse país e do receio sobre o rumo do partido comunista, entre sair de cena pelo bem e o futuro dessa nação ou resolver adotar o isolamento econômico, como ocorreu no século XV, quando a monarquia confuciana recusou o comércio externo.

Há muitos exageros, tanto por parte dos críticos como dos admiradores do crescimento chinês, pois além desse país não dispor das instituições iluministas, também não tem a vantagem do domínio da economia do conhecimento, a qual está concentrada nos EUA, visto que “possuem uma economia de US$ 11 trilhões e ainda é quatro vezes maior do que a da China e de que são muitas vezes mais ricos em termos de renda per capita. Eles ainda são responsáveis por mais de um quinto da produção mundial. Treze das 20 maiores marcas do mundo, e 53 das 100 maiores, são americanas. Os EUA lideram o mundo em inovação e patentes. Sua força militar é impressionante, eles podem mobilizar um exército de 500 mil soldados. Esse é o país que recebeu do Iluminismo o legado da liberdade de expressão, da liberdade de associação, do Estado de direito, do pensamento livre e dos freios e contrapesos pluralistas”. A vantagem do EUA e do Ocidente é o domínio da economia do conhecimento e das instituições iluministas.

A globalização, fenômeno este que constitui a teia do mundo contemporâneo, é um processo irreversível, e que só aconteceu após a Segunda Guerra porque os líderes políticos quiseram, especialmente, os dos EUA, os quais criaram e induziram a arquitetura do comércio internacional, a partir de sua visão de livre comércio e de uma política multilateral. Mas os EUA a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001 mudaram de postura, como ficou evidente na Guerra do Iraque, também na recusa ao Tratado de Quioto, que demonstrou o desprezo da América aos graves problemas ambientais, mesmo produzindo um quinto de toda a poluição do mundo, tal postura tem produzido enorme perda do prestígio da América para liderar a globalização e seus problemas, os quais a solução necessita da colaboração das maiores economias do mundo, sobretudo dos EUA.

De fato, a globalização é o resultado da reconstrução da Europa Ocidental e do Japão, que haviam sido destruídos pela guerra, do surgimento dos Tigres Asiáticos, do desmoronamento da URSS e do comunismo no Leste Europeu, e da industrialização chinesa, processo induzido a partir da capacidade econômica e política dos EUA. Mas o início do século XXI trouxe à tona os graves desequilíbrios da economia americana, bem como sua relação de interdependência com a economia chinesa. A entrada da China na OMC, em 2001 e a política de portas abertas à China, que produziram crescimento exponencial das exportações chinesas induziram a China à posição de maior financiador do Tesouro americano, situação que transforma o dólar numa moeda arriscada para a estabilidade do sistema financeiro mundial, assim também, a excessiva acumulação de reservas de dólares por parte do sistema bancário chinês criou uma economia de empréstimos podres com potencial de arrastar o seu mercado financeiro ao abismo. Portanto, a economia chinesa e americana se encontra numa enrascada financeira ameaçadora.

O gigantismo da China, além de estar ameaçado pelas suas próprias contradições, ainda se depara com vários limites e pontos críticos que esbarram nos interesses dos EUA, entre os quais, petróleo, comércio e moeda, sendo que esses elementos poderiam assumir outra dimensão se a China deixasse de ser “propriedade” do partido comunista. Os EUA têm capacidade muito superior a da China, em todos os campos de comparação, especialmente o militar. Mas o que mundo menos precisa é de uma guerra militar ou comercial, pois os prejuízos serão para todos os países. A solução segundo, Hutton, depende da manutenção da política de portas abertas para a China por parte dos EUA, e por outro lado exigir que a China assuma sua responsabilidade de acordo com sua importância no sistema internacional, pois não podem continuar a usufruir dos benefícios do livre comércio, sem nenhum compromisso com os mecanismos que lhe dão causa, de modo oferecer o tempo à transição para uma economia de mercado e à democracia.

Segundo Hutton, a globalização não pode continuar ancorada nos EUA, considerando a mudança de seu comportamento que se tornou beligerante, unilateral, egoísta, dominado por forças ideológicas conservadoras e anti-iluministas, que o corrompeu nas últimas décadas, desse modo à globalização requer uma nova liderança. “Para progredir, precisamos de uma crença na ação internacional legitimada pelo compromisso multilateral com o Estado de direito e um Ocidente autoconfiante, em vez de defensivo e ansioso; precisamente o que não temos. Essa situação fica ainda mais trágica porque a União Europeia é a experiência mais bem-sucedida com governo multilateral que o mundo já viu, ela oferece um modelo de capitalismo, mais atraente que o americano e mais solidário às preocupações chinesas sobre a equidade e a solidariedade social.”

Surpreende que o livro não tenha avançado sua análise sobre a União Europeia, ainda que a coloque na posição de eixo do mundo. É uma leitura estimulante nesses tempos sombrios, dominado pelo medo e incertezas quanto a nossa capacidade de superarmos a crise que se instalou em nosso país causada pela epidemia do coronavírus e das medidas governamentais adotadas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha do livro O Quarto Poder – Uma outra história,

RESENHA DO LIVRO SUPERFUSION: HOW CHINA AND AMERICA BECAME ONE ECONOMY AND WHY THE WORLD'S PROSPERITY DEPENDS ON IT